
Lá se vão três décadas desde o momento em que fiz a minha primeira música. Tudo começou em 1966. Tinha 16 anos, morava em Vitória, na então Praia Comprida (hoje incorporada pela Praia do Canto), na rua Madeira de Freitas, 56, e estava começando a tocar violão, ensinado por meu amigo Luiz Fernando Vieira Gomes. Este CD contém todas as minhas onze composições.
Em 1966 fiz três músicas, que foram completadas em 1996. Como esqueci a letra da minha primeira música, no último verão em Guarapari, vendo o Clube Siribeira e lembrando-me das marchinhas daqueles seus bailes, do final dos 60 e início dos 70, fiz a letra Do Ângulo Daqueles Carnavais. Para o andamento original da música, resgatado por Paulo Branco, que já a tocava desde 1968, fiz a letra Do Ângulo do Amor e Desamor. Minha segunda música, Filosofando, ganhou um trecho de letra também esquecido (o da moça linda que vai passando). Por fim, Canção Pra Criança Dormir teve agora introdução, harmonia, arranjo e transcrição feitos pelo Maestro Tião de Oliveira, que, assim, passou a ser meu parceiro.
Em 1968 compus Trégua e Paz (com José Carlos Meira Mattos) e Conversa de Bar, que são totalmente originais. Nesse ano também fiz Cinerama, que de lá pra cá sofreu pequenas alterações em sua letra.
Em 1970 fiz Amor, Estrelas e Paixão, Ilhas e Não-Estado. A primeira teve alterações na sua letra ao longo dos anos. São de 1996 os complementos das letras de Ilhas (última estrofe) e de Não-Estado (a mensagem da paz).
Mais Valia é do tempo do telex, no início dos anos 80, quando já morava no Rio, então casado com Lygia. Há uns 10 anos comecei a fazer a melodia da minha última música, Teoria Geral da Bidualidade, concluída no final da gravação deste CD.
Cinerama foi tipo um “insight”: nasceu toda em apenas uma hora. Nela relato minha percepção sobre a mobilidade de tudo, a cada ângulo e tempo do olhar. E foi naquela época que também comecei a olhar – e ver! – as ondas do mar. Com o passar dos anos, as idéias de Cinerama foram evoluindo, até se transformarem no que hoje chamo de Teoria Geral da Bidualidade (TGBD), que a meu ver é uma grande descoberta científica, pois mostra a estrutura de tudo que existe no universo e fora dele. A mais importante aplicação dessa Teoria, até o momento, foi a ajuda que ela me deu no desenvolvimento das idéias que originaram o Plano Real (vide observação 1).
Achei que fazendo uma música sobre minha teoria poderia divulgá-la para todos de forma mais eficaz, agradável e comunicativa. Tentei, através de sua melodia, letra, arranjo e interpretação, explicar as Quatro Leis da TGBD, cujo esquema gráfico está na capa deste disco e, também, na própria letra da música. É só observar – e notar!. No final deste livreto apresento um resumo da TGBD, para quem quiser conhecê-la com maiores detalhes.
Em agosto/95, estimulado pelo meu amigo Antônio Carlos Gomes da Silva, gravei – pela primeira vez! – minhas músicas numa fita k7. Dando o devido abatimento pela minha péssima voz e fraco violão, achei que elas não eram tão ruins assim. E, ao invés de comprar um carro novo, decidi produzir este CD. E, assim, materializar toda essa energia.
O resto não foi difícil. O maestro Paulo Sodré assumiu a direção musical e fez a maioria dos arranjos. Além disso, na produção executiva contei com o apoio de meu irmão Afonso Abreu, que é uma verdadeira entidade no meio musical capixaba. Também participaram dos arranjos os maestros Colibri e Tião de Oliveira, Afonso e dois grandes roqueiros, Paulo Branco e Alexandre Lima. Na gravação e mixagem o destaque foi Paulo Aguiar, do Estúdio P&A (Vitória), enquanto a masterização ficou a cargo de Renato Pinto, do Vison (Rio). Welington Pinto Ferreira fez o projeto gráfico deste livreto, e meu primo Edson Rocha Braga a sua revisão.
A maioria das minhas músicas foram cantadas por Eliane Gonzaga, e as demais por Queiroz, Paulo Branco, Davi Brito, Zé Lopes, Magda Amarante e eu. O Quarteto JB (Antônio Paulo, Carlos Augusto, Afonso Abreu e Marco Antônio Grijó), fazendo jus ao seu nome, entrou completo no Jazz e nas Bossas-novas (uma delas com Chico Lessa); e incompleto nos sambas, que contaram com Josué Ramos e Pedro Salgado. Na marcha de carnaval (com o surdo de Mário Ruy) e nos dois instrumentais orquestrados, atacaram os irmãos Aílton Paulo (Colibri também toca num samba e num rock, e transcreveu as músicas) e Antônio Paulo. Nas baladas e nos rocks leves participaram Paulo Sodré (também num samba e numa bossa), Carlos Bernardo, Pedro Alcântara (também nas bossas), Queiroz, Lotcy, Chryso Rocha e Alexandre Lima. No rock pesado entraram Paulo Branco (também numa balada), Amaro Lima e Marcos Andrade. E na outra ponta, no estilo clássico, sob a regência de Tião de Oliveira (também numa bossa e num samba), temos Moacyr Teixeira Neto acompanhado pelo Quarteto de Cordas Capixaba, formado por Iesuratinan Lobato, Wagner de Souza, Renata Lopes e Sanny Souza, todos da Escola de Música do Espírito Santo.
Ressalto que Moacyr Teixeira Neto se classificou entre os seis semi-finalistas da categoria Instrumentista no “Festival 20 anos Seis e Meia – BR Petrobrás” (apoiado pelo MIS – Museu da Imagem e do Som e dirigido por Albino Pinheiro) que contou com 1.400 concorrentes nas categorias Compositor, Cantor e Instrumentista. No dia 21/09/96, no Teatro João Caetano (Rio de Janeiro), acompanhado pelo Quarteto de Cordas Capixaba, Moacyr foi muito aplaudido ao executar no violão Canção para Criança Dormir (vide foto).
Eu e meu irmão Alvaro Abreu não podíamos ficar de fora. Entrei com o meu violão na versão original de Ilhas, cujo subtítulo, A Gente Faz o Que Pode, deriva do meu desempenho. Também entrei, com minha voz rouca, nas duas versões da Teoria Geral da Bidualidade. Alvaro entrou com seu tamborim nos dois sambas. Aliás, foi ele que me sugeriu o final da letra de Conversa de Bar. E também com muitas sugestões e orientações, além das fotos, que tirou junto comigo e minha prima Rachel Braga, autora do bonito desenho dos meus olhos da contracapa do CD.
Pode parecer estranho existirem, num mesmo disco, 2 versões de Cinerama, 2 de Ilhas e 4 da série Do Ângulo. Até meus irmãos e outros acharam isto. Contudo, considero-me muito mais um filósofo e cientista do que um músico. E, assim, neste disco estou também lançando e tentando transmitir a TGBD, fazendo uso de vários exemplos de bidualidades (vide observação 3). Além disto, essas múltiplas versões são uma comprovação da existência dos diversos ângulos e tempos do olhar, tal como diz a letra de Cinerama.
Estou orgulhoso e grato por ter conseguido reunir, neste CD, 30 dos melhores músicos da minha terra, cada um na sua praia. Valeu a pena ter composto cada música num andamento, apesar das minhas limitações. Afinal, além de realizar o sonho de gravar minhas composições, consegui juntar todo esse time de feras num mesmo disco, que começa pela minha última música e termina pela primeira, feita, também, há 30 anos atrás.
Ofereço este CD aos meus pais, que como eu são de Cachoeiro de Itapemirim, Bolivar (falecido em 1962 e de quem herdei o meu lado Abreu, voltado para a ciência e a política, vindo do meu avô Fernando de Abreu) e Anna Graça (de quem herdei o meu lado Braga, voltado para as letras e a cultura, presente em meus tios Newton e Rubem Braga, e também para a política, vindo do meu avô Francisco Braga), e às minhas filhas Fernanda, Bianca e Mariana, para quem espero ter repassado tais vocações, e para as minhas irmãs Beatriz e Ana Maria. Como é bom pertencer a uma família unida.
Espero que este disco agrade a vocês e, assim, bidualize. Se quiserem entender o que é bidualizar, primeiro escutem a música, vejam a disposição gráfica de sua letra e leiam o resumo da teoria. E depois confiram a explicação contida na observação (2). No mais, um grande abraço.
Rio, outubro de 1996
Claudio Braga de Abreu e Silva
Observações:
Observação 1
Refiro-me ao meu trabalho, de 31/08/93, denominado “A Indexação Diária Negociada” (de sub-título “Contra o Veneno da Cobra, Só o Próprio Veneno da Cobra”), que foi uma contribuição pessoal para a Campanha Contra A Miséria e a Fome, do Betinho. Na sua primeira versão, de 30/07/93, fiz uma menção à TGBD, omitida nas versões seguintes. Esse trabalho foi a base teórica do denominado Plano Real, pois nele propus, pioneiramente, a criação de um indexador cambial diário para a economia, o qual após longo período se transformaria na nova moeda forte nacional. Tal indexador, posteriormente, veio a se chamar URV e se transformou, prematuramente, no Real.
Lamento que os presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, para os quais enviei o citado trabalho no início de setembro/93, nunca se dignaram a reconhecer o meu mérito nessa questão. E, principalmente, que não tenham aproveitado integralmente minhas propostas.
Como o período da URV foi muito curto (por motivações eleitorais) e não foram feitas as reformas estruturais necessárias (por falta de decisão polí tica), restou ao governo, para compensar, sobrevalorizar o câmbio, escancarar a economia às importações e globalização, aumentar os juros, arrochar os salários (via sua desindexação), resultando disto a contenção do crescimento e os aumentos do endividamento público, da necessidade de entrada de recursos externos, da inadimplência e quebradeira das empresas/pessoas e do desemprego. Tudo de uma forma bem diferente do que propus.
E, assim, colocaram em risco o nosso mais bem sucedido plano de combate à inflação, e nos meteram numa sinuca de bico – que lenta e gradualmente vai deterioando a nossa economia – e para a qual já sugeri uma saída, infelizmente não aproveitada. Note-se que a nova moeda foi criada numa paridade de um para um com o dólar e, depois de 60% de inflação, continua quase nessa mesma paridade. Afinal, o Real é real?
Observação 2
Segundo a TGBD, para que algo exista é necessário que tenha quatro componentes, denominados Unos, que interagem 2 com 2 numa estrutura Bidual (ou seja, um Dual de Duais), e também 3 com 1, numa Quadra, onde o Terno fica de um lado e o Quarto do outro. O Quarto por sua vez se decompõe no Anti-Terno do Anti-Bidual, cujo Anti-Quarto é a unificação do Terno do Bidual, conforme mostrado na Figura 1.3 do texto da TGBD.
Tal figura é adaptada a seguir para explicar o significado do verbo bidualizar no caso deste CD. Note que ela apresenta o Terno deste CD que inclui as pessoas que o fizeram, os instrumentos e os equipamentos que o produziram e o próprio CD. Do outro lado, temos o nosso possível Quarto, que se decompõe no Anti-Terno dos que irão ouví-lo, composto por vocês, possíveis ouvintes, suas aparelhagens de som e o som que deles ouvirão.

Assim, para que o nosso Terno se complete é necessário que exista o Quarto, que podem ser vocês. Para isso é preciso que gostem do que irão ouvir. Caso contrário, este CD ficará inerte, sem tocar. Ou seja, não será ouvido e nem bidualizará.
Observação 3
No caso da série Do Ângulo temos um exemplo de estrutura bidual: 2 versões têm letras e 2 são instrumentais (2+2); além disso, 3 versões tê m arranjo de Colibri e 1 de Paulo Branco (3+1), cuja letra é uma aplicação da TGBD para o caso do amor e desamor. A minha música Teoria Geral da Bidualidade tem um objetivo muito mais didá tico do que musical. Ela contêm diversos exemplos de bidualidades, mostrados a seguir: a) a música tem 4 blocos de mesma melodia, mas com temas diferentes, dentro de uma estrutura bidual, ressaltada pela sua disposição o gráfica; b) cada bloco da música tem 4 sub-blocos, contendo 3 versos cada e 1 pausa musical na melodia; c) dentro de cada bloco, a melodia dos 2 primeiros sub-blocos é a mesma, e diferente da dos dos 2 últimos, que também são iguais; d) o acompanhamento é feito por um quarteto, onde 2 são fixos (o baixo e a bateria); e 2 são móveis (os teclados e os saxofones – cada um com 4 timbres, com 1 trimbre para cada bloco da música; e) dos 4 do quarteto, apenas 1 sola (o sax) e os outros 3 acompanham; f) na versão bidual existem 4 vozes, 2 masculinas e 2 femininas, e, também, 2 vozes de profissionais (Eliane e Zé Lopes) e 2 de amadores (Magda e eu); g) nessas 4 vozes, 1 (a minha) se diferencia das outras 3, por ser a do compositor; h) em cada 1 dos 4 blocos da música, 1 voz sempre se sobressai sobre as demais 3. Existem outros exemplos de bidualidade na letra da música, na capa do CD e em tudo que existe, os quais, por falta de espaço, e como exercício, deixo para vocês descobrirem. É só olhar – e ver! . E observar – e notar!

