CD 2: Por Que Não Ousar?

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Apresentação

Escolhi o título Por que não ousar? para esse meu segundo CD com base na letra da sua faixa de abertura. Realmente, nos anos 2000 ganhar força e buscar o hoje impossível é uma ousadia que todos deveríamos ter. Ao idealizar a capa, me imaginei como um “rebelde com causa”, bem otimista, que saísse por aí grafitando essa mensagem em muros imaginários, procurando arregimentar o máximo de pessoas para o objetivo de tentar manter nosso mundo vivo e ambiente, e melhorá-lo, tornando-o menos desigual e mais fraterno.

Este disco, que contém todas as minhas composições feitas a partir de 1997, foi gravado em três fases. A primeira é de setembro de 1998, com a gravação do arranjo que o maestro Colibri fez para Bloco das desvirtuadas, composta acatando sugestão de um amigo. Tinha a expectativa de que ela viesse a ser adotada por um bloco de carnaval de Guarapari, mas seus dirigentes não se interessaram. E, contrariando a letra, pelo menos num certo ano, deixaram a folia acabar, pois o bloco não saiu.

A segunda fase vai de setembro de 1999 a março de 2000, quando gravei mais sete músicas. A motivação partiu da composição título: queria gravá-la ainda em 1999, pois era uma tentativa de projeção para o que estaria por vir nos anos 2000. Ela é a única que não  sofreu qualquer acerto posterior. Acabei, no embalo, gravando outras seis, já participando nos arranjos, feitos em sua maioria pelo maestro Paulo Sodré, o grande diretor musical do meu primeiro CD (A cada ângulo e tempo do olhar, de 1996). E comecei a cantar, embora me escondendo em alguns duetos.

Tive muita satisfação ao gravar a única música em que toquei em conjunto na minha vida, embora sob a proteção do estúdio, onde se pode errar e repetir. E logo com Os Mamíferos remanescentes, a saber, meu irmão Afonso Abreu, Mário Ruy e Marco Antônio Grijó, que formaram com Aprígio Lyrio e Arlindo Castro, já falecidos, a maior banda de rock capixaba do final dos anos 60 e início dos 70. Ela é uma bonus track, pois a versão titular de Vírus da última geração é cantada por Paulo Branco, autor da linda melodia de Anos 2000, onde Os Mamíferos também tocam.

Produzi em casa um CD com as oito músicas até então gravadas e, para minha surpresa e estímulo, passei a ouvir algumas delas serem tocadas na Rádio Universitária FM, de Vitória, nos programas de Nenna B (um espaço reservado à música capixaba inexplicavelmente retirado do ar) e de Mr. James.

A terceira fase vai de abril de 2001 até outubro de 2002, com gravação de mais nove músicas, oito delas com recursos de programação midi. O Alberto Mejia, meu professor de música, é um grande violonista clássico, tem paixão por Astor Piazzolla e domina amplamente a escrita musical no computador. Ele já havia transcrito para registro as partituras das oito músicas anteriores, mas os primeiros arranjos que fizemos para gravação foram o do baião Não volto não e do samba Não nasci para ser termômetro. Com o apoio do midi-man Paulo César de Souza (Paulinho), do Scalla Studio, as gravamos em abril de 2001. De lá para cá, outras seis foram gravadas, culminando com o acompanhamento totalmente midi de Com quem será?, música que eu, Wanda Alves (minha musa em Foi bom conhecer você) e Alberto fizemos para o tema dos pais e seus filhos. O baião também é de nossa autoria.

Minha intérprete maior, Eliane Gonzaga, destaque nos meus dois discos, acabou virando parceira. Ela me ofereceu uma melodia e um tema (Reencontro) para colocar letra. E esse acabou sendo nosso maior encontro musical. 

No Rio, em 1993, conheci Fernando de Jesus, então porteiro do Mistura Fina, que virou amigo e parceiro. A nossa primeira música saiu um tanto diferente do imaginado. O tema original era enaltecer a amizade entre pessoas bem diferentes, como nós dois, mas que tinham em comum a paixão pela música. A letra inicial do Fernando ficou tão carinhosa que optamos por mudar o tema para o do amor, de maior mercado, e daí veio a Magia Sensual. Em seguida vieram dois sambas, Ao espelho, de letra fictícia, e Com amigos e sem maldade. Este último, feito realmente depois de uma noite num karaokê, foi gravado com arranjo e violão de Jorge Tarzan.

Embora morando no Rio, fiz todas as gravações em Vitória, por saber que lá contaria com profissionais de nível, representativos de boa parcela do que há de melhor na música do meu estado (nasci em Cachoeiro), aos quais sinceramente agradeço. Destaque-se a participação do pianista e tecladista Pedro de Alcântara, dos violonistas e guitarristas Léo Carvalho e Juninho Guitarra e do baterista e percussionista Gabriel Brandão, que tinha apenas 13 anos quando gravou no disco.

O fato de conseguir fazer músicas me intriga. Afinal, mal toco violão. Aliás, acho que o Alberto já desistiu de me ensinar a tocá-lo, e preferiu ser meu parceiro. Um bom exemplo disso é O encanto do blues, onde ele fez a música e eu, a letra.

Tenho mais facilidade para fazer letra do que música. Geralmente faço a melodia numa corda só do violão: somente algumas vezes consegui fazer a melodia junto com a harmonia, tal como no Rock de Verão. Talvez por usar tal tática pude compor em estilos tão variados. Assim foram feitas Entre amigos e Cervejas, Coisa mais linda, Enquanto você não vem, Amor, profundo amor, entre outras já citadas.

A melodia geralmente surge de estalo. A seguir, o Alberto a transcreve e lhe dá a harmonia, tudo no computador. Nele vou fazendo as letras diretamente na partitura, o que me facilita bastante. Tento sempre encontrar palavras que se encaixem bem na melodia, tentando rimar sempre que possível. Isso dá um bom trabalho, até que as considere terminadas. Os temas geralmente são fictícios, criados a partir de algo real real.

Não tocando bem nenhum instrumento, optei por tentar cantar, por acreditar que, sendo o compositor, poderia passar a emoção da minha criação, nem que fosse em uma espécie de voz guia, para outras eventuais gravações. Tenho uma voz muito rouca e uma timidez nata. Tentei superar isso em muitas idas a um karaokê e em intermináveis gravações caseiras de minhas músicas, acompanhado pelo computador. Em suma, parodiando Neruda, confesso que tentei.

A capa, fotos e foto-montagens foram feitas pela minha prima Rachel Braga e a revisão de texto pelo seu irmão Edson Braga. Meu sobrinho Márcio Abreu colaborou na formatação do material gráfico.

Agradeço ao Chico Caruso, que, depois de um show musical, no Rio, após eu lhe ter dado uma cópia do meu primeiro CD, em menos de um minuto fez a minha caricatura num guardanapo, e pediu ao seu irmão gêmeo, Paulo Caruso, que a endossasse.

Ousar é sempre necessário para que realizemos algo. Se não tivesse ousado não teria feito meu primeiro CD e muito menos este, no qual, além de compor, fazer arranjos, produzi-lo e tocar pela primeira vez em conjunto, me aventurei a cantar.

É certo que se trata de empreitadas de proporções bem diferentes. Mesmo assim, tomando como exemplo este meu CD, acredito que se ousarmos o suficiente nos anos 2000 poderemos, com certeza, minorar nosso lado detestável e vil e realizar o que John Lennon nos fez imaginar. Afinal, temos um milênio para tanto. Por que não ousar?

Claudio Abreu

Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2002

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